Crítica - Um Credor da Fazenda Nacional - O Estado de São Paulo (3)

O ESTADO DE SÃO PAULO

Sábado, 26 de janeiro de 2002

Uma bem-sucedida tradução cênica da obra do autor volta ao palco

Montagem de 'Um Credor da Fazenda Nacional' reestréia no Arena em fevereiro

BETH NÉSPOLI

Melhor que a leitura de um bom autor teatral, só mesmo ser espectador de uma encenação bem-sucedida de sua obra. Prazer ao alcance do público paulistano a partir do dia 9, quando reestréia "Um Credor da Fazenda Nacional", de Qorpo-Santo (leia trecho acima), no Teatro de Arena.

Dirigido por Georgette Fadel com o elenco da Cia. São Jorge de Variedades, o espetáculo foi considerado um dos melhores da mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba de 2000, realizou três temporadas em São Paulo, excursionou por vários Estados e retorna agora à cidade.

O grande mérito da diretora nessa encenação está em reproduzir com rara felicidade o clima surrealista que perpassa a dramaturgia de Qorpo-Santo, sem perder em empatia com o público e em humor. São apenas 30 espectadores por sessão num espetáculo com diferentes cenários - diferentes salas de uma repartição pública - pelas quais o público é conduzido, sempre na companhia do protagonista, que tenta em vão receber um dinheiro que lhe é devido.

Embora mescle trechos de três peças do autor - "Um Credor da Fazenda Nacional", "Dous Irmãos" e "O Marido Extremoso ou O Pai Cuidadoso" - o eixo central do espetáculo gira mesmo em torno do pesadelo kafkiano vivido pelo "credor" que, de posse de um requerimento, já bastante amassado, passa por uma via-sacra para tentar receber o que lhe deve a "Fazenda Nacional".

A primeira cena tem início antes mesmo de o público entrar no teatro e reproduz uma briga de garotos de rua. O primeiro impacto da peça se dá entre o contraste da cena exterior, de clima tenso e ritmo acelerado, e a abertura das portas da repartição pública: ali ninguém parece ter pressa.

Convidados a sentar em cadeiras de diferentes sala de espera, onde compartilham o drama do protagonista, o público aos poucos vai percebendo que a peregrinação daquele "credor" começou há muito tempo. E suas tentativas são marcadas por uma rotina exasperante, um jogo de empurra que o faz enfrentar ora a arrogância de um chefete, ora a indiferença de um funcionário apático. Mas nem tudo é má vontade. Até mesmo os funcionários de boa vontade acabam perdidos no emaranhado da burocracia.

Numa das melhores cenas do espetáculo, o credor vê-se envolvido numa enloquecida ciranda - muito bem coreografada - de carimbadores de processos, da qual acaba fazendo parte. Subitamente, toca um sineta que anuncia o "momento cívico". Gestos congelados, imóveis, todos escutam por um sistema de alto-falantes, o hino "como é bom ser brasileiro" seguido do "momento de relaxamento".

"Todo brasileiro é credor da Fazenda Nacional; sabe o que é enfrentar filas imensas, ser mal atendido numa repartição pública ou, pior, esperar por socorro num hospital público, onde não se é tratado com dignidade."

 
Um Credor da Fazenda Nacional. De Qorpo-Santo. Direção Georgette Fadel. Duração: 1h15. Sábado, às 19h00; domingo, às 18h00. R$ 10,00. Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Rua Teodoro Baima, 94, tel. 256-9463. Até 27/04/2002

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