Crítica - Um Credor da Fazenda Nacional - O Estado de São Paulo (2)

O ESTADO DE SÃO PAULO

Sexta-feira, 2 de março de 2001

"Credor da Fazenda" volta com preços populares

Espetáculo que recria universo peculiar de Qorpo Santo tem sessões a R$ 10,00

BETH NÉSPOLI

Dirigida por Georgette Fadel, "Um Credor da Fazenda Nacional", de Qorpo-Santo, foi uma das melhores surpresas da mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba, no ano passado. Depois de excursionar por alguns Estados brasileiros, a comédia reestréia amanhã, com ingressos custando apenas R$ 10, no Teatro Calcilda Becker.

Em "Um Credor", Georgette recria com muito humor o tom "absurdo" das peças de Qorpo-Santo ou José Joaquim dos Campos Leão (1829-1883), autor de 17 peças, todas escritas durante o período em que esteve internado como doente mental na Casa de Saúde Doutor Eiras, no Rio, para onde foi envidado pela família.

Embora a peça misture alguns textos curtos do autor, a história que o público acompanha gira em torno do "credor" brilhantemente interpretado por Patrícia Gifford. De óculos, magrinho, um frágil cidadão tem em mãos um requerimento que garante - ou deveria garantir - o recebimento de um valor em dinheiro, a ele devido pela Fazenda Nacional.

Com o papel na mão, o cidadão faz uma verdadeira via-crúcis por uma surrealista repartição pública. O público acompanha o personagem pelos labirinto da burocracia brasileira nessa tragicomédia que nos obriga a rir - no teatro - daquilo que não tem a menor graça no dia-a-dia.

Numa das cenas mais divertidas da peça, ele se vê envolvido numa verdadeira coreografia de carimbos e arquivamento de pastas, bruscamente interrompida pelo "momento cívico". Durante alguns minutos, todos os funcionários cantam em posição de sentido o hino "Como É Bom Ser Brasileiro", seguido do "momento de relaxamento".

"Todo brasileiro é um pouco credor da Fazenda Nacional", diz a atriz Cátia Pires, que interpreta a gordíssima mãe do credor numa cena extraída de outra peça de Qorpo-Santo, "Dous Irmãos".

 

Voltar